sábado

Seis

O dia azul de inverno secava os olhos e as mãos. Ela caminhava como quem enfrenta uma tempestade, arrastando-se pesada. Doía. Faltava ar.
A possível morte ressuscitara a memória de toda a história que viveram: o encontro; os desencontros. O instante em que espiou pela janela da eternidade e o instante em que o que era vidro se quebrou. Era frágil o amor, no fim das contas. Frágil como coisa viva.

sexta-feira

Cinco

Ainda era em sobressalto que se lembrava da certeza que a atingira naquele dia. Dois dos seus maiores medos: que ele morresse, que ela não soubesse. Soltos no mundo, sem laços, já era quase como se não existissem um para o outro. Mas, para além do ódio, havia conforto em saber que caminhavam sobre um chão comum e que poderia haver encruzilhadas.

quinta-feira

Quatro

O moço no fundo da sala, seria ele? É a mesma boca, o mesmo corte de cabelo.
E aquele outro, de costas, atravessando a rua? Não será ele? O mesmo jeito de se vestir, o mesmo tom da pele.
Se ela ligasse, ele atenderia? E, se não atendesse, seria para nunca mais?

quarta-feira

Três

Ainda o ódio. A casquinha arrancada à unha e a falta de tê-lo por perto latejando. Se eles tivessem brigado, talvez fosse mais fácil. Se tivessem ficado juntos até o amor aguar e tornar-se insosso, insípido e inodoro. Mas o amor não aguara coisa alguma, estavam ali ao alcance da memória o cheiro, o gosto e a textura da pele do outro. O fim não acontecera, a não ser que tinha acontecido.
Por enquanto, em seu saber ignorante, ele não morrera. A não ser que houvesse morrido.

terça-feira

Dois

Indecisa, não queria ligar ou escrever. Tanto tempo sem dar notícias, era estranho ligar para checar se estava bem. Se estava vivo.Também não ligava porque, naquele instante exato, o odiava intensamente: por seu silêncio, por sua ausência. Por não amá-la.

segunda-feira

Um

Não o via há alguns anos e a falta que ele fazia já tinha casquinha bem-feita, mesmo que nunca chegasse a cicatrizar de todo. Por isso, foi em sobressalto que sentiu, sem motivo ou explicação, aquele "ploct" por dentro. Fim de tarde, no meio da rua, cercada de uma porção de gente que ia e vinha, e o fio solto e vivo ricocheteando nos cantos dela. Ele estava morto, teve certeza. E tudo ficou árido e vazio.

sábado

Idades só há duas: ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a Eternidade.

(Mário Quintana)

sexta-feira

Seis

Mais um dia que começava, e ela resistindo a deixar a ansiedade dominar.
Depois do almoço, uma moqueca farta em coentro, pimenta e leite de coco fresco, deitou na cama e ficou em silêncio. Sem dormir.
Só deitada, sentindo o movimento da maré enchendo. Não sabia, mas pressentia. Aquele era o dia em que suas vidas iriam mudar.
Pensou no marido, em quanto o amava, se conseguiriam adaptar-se à vida nova. Pensou em sua mãe e em sua avó, e em suas tias e suas bisavós, e nas mulheres que - desde o início dos tempos - abrigavam tantos mistérios dentro de si e davam a luz somente ao mais óbvio e milagroso deles. Pensou tantas coisas e em nada, ao mesmo tempo, que até escutou o "ploct" de algum lugar dentro dela: a decisão do filho em se dar a conhecer; o estalo da represa começando a abrir; o ponto de virada do carrinho e o imenso vazio da montanha-russa abaixo. Sorriu, feliz. Inteira, mergulhada em medo e mel.

quinta-feira

Cinco

O agito do dia anterior lhe obrigara a dormir até mais tarde e tornara lento o andamento do dia. Dez anos entre o acordar e o ir dormir. Cem anos entre o café e o jantar. Mil anos entre o nascer do dia e o despertar da noite. Uma sabedoria ancestral lhe ensinava a aquietar-se.