A voz dele do outro lado da linha. Vivo, afinal. Desligou o telefone e chorou por horas - feito coco seco que de repente rachasse e minasse a água doce e rara. Vivo, afinal, repetiu. Como se de novo o encontrasse pela primeira vez - descoberta, repouso. Angelical proteção.
Respirou fundo, uma, duas, cem vezes. Não era a iminência da ligação a se completar que lhe pesava. Era a fragilidade da decisão que tomara. Tomara? Não sabia ao certo.
Tinha se cansado de carregar a morte por dentro. Mesmo a possibilidade de dor parecia melhor que a secura das últimas semanas.
Era ela que arriscava ter morrido sem aviso? O deserto por dentro, a secura dos gestos e sentires, as fecundações difíceis e farpadas. A recusa da esperança na vida. A imobilidade mesmo em meio à tempestade. Ele podia estar morto, doeu-se, aflita. Então por que não ligava logo e acabava com a dúvida?
Saber se estava morto ou vivo só fazia importância se ela decidisse. Se pusesse os pés nus na areia quente, se encontrasse coragem pra ir ao encontro do duvidoso oásis. Se rasgasse dentro de si umidade para iluminar os olhos.
Porque vivo ou morto, ele era sempre miragem. Vivo ou morto, a distância parecia a mesma.
Mas isso era bobagem, ela sabia. Se ele estivesse morto, a distância era de responsabilidade da morte, do destino, do curso inelutável das coisas. Ou até de deus. Se ele estivesse morto, ela havia sido abandonada. Ela podia mesmo se revoltar.
Mas se estivesse vivo, a responsabilidade da distância era somente deles; era dela.
Imaginá-lo morto inaugurara aquela tempestade de areia por dentro dela. Descobri-lo vivo não deveria dar início à calmaria? Não devia aliviar as ranhuras que ardiam e sangravam por todos os seus cantos?
Mas se descobri-lo vivo era encontrar o espelho d'água em meio ao deserto por onde caminhava, era também deparar-se com sua covardia. Era trocar a consciência da secura pela miragem da fonte.
Se quando era a hora, as pernas haviam falhado, por que agora seria possível fazer avançar o passo? Se ele estivesse morto realmente, de que valeria caminhar em sua direção? De que adiantaria ligar? De que adiantaria saber como ou quando?
Por dentro, tudo é aridez e aspereza.Como se a água entalasse na garganta e aumentasse a sede que devia aplacar. Ou a sede é que é de outra coisa e não pode nunca ser amansada.