"Agora está claro e evidente para mim que o futuro e o passado não existem, e que não é exato falar de três tempos - passado, presente e futuro. Seria talvez mais justo dizer que os tempos são três, isto é, o presente dos fatos passados, o presente dos fatos presentes e o presente dos fatos futuros. E estes três tempos estão na mente e não os vejo em outro lugar. O presente do passado é a memória. O presente do presente é a visão. O presente do futuro é a espera". (Santo Agostinho, Confissões).
segunda-feira
Trinta e seis
Ao fechar os olhos, abrira as comportas e a decisão mansa e fresca pôde, enfim, escorrer sem susto. Fruta madura e rica em sumo, tão palpável que ela podia quase tocar - regozijando-se, inteiramente mergulhada naquelas águas recém-descobertas. Do deserto, sobrara apenas o chão arenoso, fundo de rio, a lembrar os pés dos caminhos já percorridos.
domingo
Trinta e cinco
Fechou os olhos por um instante, atenta a ouvir o que lhe ia por dentro. Para sua surpresa, sem tantos suportes - os filhos, a casa, a vida em comum - a decisão corria caudalosa por suas veias. Doce, fresca e úmida em meio à correnteza, nem era frágil a decisão, mas inteira. Quando abriu os olhos, pela primeira vez em tanto tempo, sorria de um sorriso sem sombras. Sentiu a vida amaciar em seda. Tão subitamente quanto o susto que a havia lançado ao deserto, podia enfim molhar os lábios. Os olhos. As mãos.
sábado
Trinta e quatro
O abismo com o qual flertava era tão mais fundo que a enorme distância que persistia dentro dela? A distância entre a vida que ela vislumbrara possível ao encontrar o outro e as sucessivas mortes cotidianas? A distância que ia da luminosidade do encontro às milhares pequenas noites dos desencontros - vagalumes às avessas, manchando o dia ensolarado que o outro lhe cavara por dentro?
sexta-feira
Trinta e três
Paralisada. Como se ainda estivesse encostada ao batente da porta, os olhos secos e lúcidos. O que estaria deixando para trás? O que encontraria à frente? Certamente não seria o outro, distante como sempre. Vivo, por certo, mas tão inacessível como antes. Ela sabia que o passo à frente era na direçao do abismo: vazio. Pedra nua. Solidão.
quinta-feira
Trinta e dois
Mas e se o gosto de areia fosse apenas resquício da tempestade? E se o sumo da vida estivesse ali, escondido sob os espinhos, inacessível somente porque ela se esquecera como encontrá-lo?
quarta-feira
Trinta e um
Ficar não fora decisão. Ficar era o hábito do deserto - o gosto de areia estragando o sabor da vida polpuda e úmida.
terça-feira
Trinta
Lavou o rosto, acordando a noite insone. Olhou-se no espelho e o que viu foi: abismo. Na fundura dos olhos, no roxo das olheiras, no ressecado dos lábios. Odiou-se sem indulto - pelo persistente desejo de alegria, pela armadilha em que se deixara apanhar, pela impossibilidade de decidir.
segunda-feira
Vinte e nove
A luz insuportável do dia; o frio insuportável da noite. Por dentro dela, tudo ardia em chama alta. Doía. Crepitava. O calor ressecando a esperança até o ponto do estalo.
domingo
Vinte e oito
A coragem morreu no umbral da porta - a mala numa das mãos enquanto a outra se ancorava firme no batente. Olhou para trás, salgando o doce recém-redescoberto e estacou. Após o desejado sopro que parecia tê-la movido adiante, parada sem brisa nem motor. A sede dos náufragos abrindo feridas no que até há um segundo era umidade e mel.
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